“Tudo o que fazemos ou deixamos de fazer tem um impacto na sociedade” | Entrevista com Fernando Starepravo
13/10/2020 - 13:53

Entre hoje (13) e quinta-feira (15), acontece a 4ª edição do Seminário Brasileiro de Políticas de Esporte e Lazer. Pela primeira vez em modo online, o seminário serviu de palco para o bate papo com o Fernando Augusto Starepravo, professor do Departamento de Educação Física da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Ele reforçou a importância do evento e contou que houve um esforço para torná-lo inclusivo, gratuíto e representativo. “Temos inscritos do Amazonas e do extremo do Rio Grande do Sul”, explica Fernando. “Isso foi muito interessante, porque logo que abrimos as inscrições, elas se esgotaram”.

O evento é organizado pelo Grupo de Estudos e Pesquisas em Políticas Públicas de Esporte e Lazer da UEM (GEPPOL/UEM), do qual Fernando é Coordenador, em parceria com a Paraná Esporte. Tem como objetivo atualizar e ampliar conhecimentos, habilidades e técnicas em políticas de esporte e lazer, além de incentivar o aperfeiçoamento de estudantes, pesquisadores e profissionais do esporte. Os participantes terão um certificado pela UEM e o seminário será disponibilizado pelo youtube, visando atender o máximo de pessoas possível. 

Nesta entrevista, cedida pela plataforma do Instagram, Fernando fala um pouco sobre participação feminina nos esportes, as diferenças entre esporte de rendimento e participativo, entre outros temas relacionados à política pública voltada ao esporte.

 

O que você entende por políticas públicas?
Quando acessamos os conceitos de política, muitas vezes pensamos nela enquanto atuação do estado, mas tudo o que fazemos ou deixamos de fazer tem um impacto na sociedade. Dentro do grupo de pesquisa [GEPPOL/UEM] nós entendemos que o esporte demanda ações não apenas do poder público, mas também de entidades privadas e do terceiro setor. Assim, preferimos tratar a ideia de política pública considerando que o esporte é uma demanda social. 

Explique como é o processo do ciclo da política pública no esporte. 
Ainda que existam modelos e etapas a seguir e observar, o processo é dinâmico. Às vezes começamos pelo final, pelo meio, e invertemos a ordem. Mas, geralmente, a gente inicia o ciclo pelo agendamento do tema, onde vemos o assunto se tornar interesse público. Depois passamos pelo processo de formulação de políticas, onde pensamos nas diversas possibilidades de ações e quais colocaremos em prática. Seguindo tem a etapa de implementação, em que a política propriamente dita passa a ocorrer e atender seu público. Finalmente chega a avaliação final, embora ela também ocorra no decorrer de todos os outros processos e ajude a alimentar a formulação da política pública.

Como é feita a avaliação de uma política pública voltada para o esporte?
Para pensar na avaliação, antes devemos pensar no que queremos dessa política.  Se for pautada no desempenho olímpico, por exemplo, faz sentido contar o número de medalhas. A questão é que a busca pelo desempenho olímpico não pode ser a única finalidade do esporte. Há uma série de outros fatores, como a inclusão social, a noção de cidadania por meio de esporte, além das interfaces com as demais áreas, como saúde e educação. No Paraná entendemos que os jogos visam a integração, então deveremos buscar algum instrumento para verificar se os jogos estão alcançando esse objetivo. O que acontece muitas vezes, e observamos principalmente nos municípios menores, é que a política vai sendo feita sem deixar claro onde se quer chegar com ela. É preciso fazer esses questionamentos para implementar melhor a política pública, e assim teremos os indicadores certos para avaliá-la. 

Como, enquanto sociedade, poderíamos participar na formação de uma política pública?
Vivemos um momento em que temos muito acesso a informação e uma capacidade elevada de comunicação devido às redes sociais. As pessoas podem enviar mensagens nas páginas dos órgãos e entidades, e cabe ao gestor ou técnico dentro das secretarias ir de encontro com o que a comunidade precisa. Existem outros meios, como conselhos e reuniões públicas, mas pensando na nossa realidade, vejo que precisamos potencializar esse uso da tecnologia. Por outro lado, municípios pequenos muitas vezes não tem um espaço formalizado de participação, mas há, no dia a dia, maior proximidade física da população com os gestores, que podem atendê-la pessoalmente. 

Qual a sua visão sobre a participação feminina nos esportes?
Temos uma sociedade que trata a mulher de maneira diferenciada e com preconceito, então isso vai se refletir dentro do esporte também. Existem nichos e modalidades que são considerados masculinas; o próprio esporte é considerado um nicho masculino. Por outro lado, recentemente a Confederação Brasileira de Futebol igualou as premiações de homens e mulheres da Seleção. Essa ação permitiu tratar de forma equânime homens e mulheres no esporte, então temos avançado, mas, assim como outras áreas sociais, há muito o que se conquistar. Observo as mulheres praticando esportes e sendo protagonistas nas modalidades, mas, tanto na gestão pública, como na privada e no 3º setor, o ambiente é majoritariamente masculino. É preciso que elas conquistem espaços de gestão e que tais espaços sejam cedidos. Muitas vezes a política pode atuar nesse sentido também, oferecendo meios para que elas sejam gestoras, técnicas e treinadoras no mesmo patamar que os homens. 

Porque o esporte de rendimento sobrepõem-se ao de participação e formação?
Historicamente, no Brasil, o esporte de rendimento sempre teve um privilégio. O esporte de rendimento tem federações, associações e  confederações, ao contrário do de participação, que é mais difuso e não existem entidades representativas ou demanda organizada. Devido a isso, as políticas acabam girando em torno do rendimento esportivo. O que precisamos considerar é que não são esportes excludentes, mas complementares. Apesar do esporte de participação ter uma atenção menor do poder público, é responsável pelo crescimento no número de praticantes de exercícios físicos. Hoje os corredores de rua tem aumentado muito e essas pessoas não tem intenção de disputar maratonas e serem atletas. É preciso olhar para o atleta de participação e não devemos matar a iniciativa particular dessas pessoas. Ela é muito interessante do ponto de vista de organização social. O estado precisa encontrar maneiras de atender esse público, que é a grande maioria, para que haja um equilíbrio. 

Qual a importância das parcerias entre as universidades e o Governo?
É interessante que estamos falando de políticas públicas que têm uma repercussão prática muito próxima, rápida e direta, mas o que vemos é a universidade e a gestão isoladas, e isso não pode acontecer. A própria Paraná Esporte tem algumas medidas de aproximação, como por exemplo a pós-graduação e o evento que vamos realizar, que são iniciativas que vem da universidade e do poder público atuando juntos. Tanto a Paraná Esporte como nós da universidade somos funcionários públicos do estado e precisamos dialogar para fazer o conhecimento científico mais palatável para os técnicos e população geral entender o que estamos fazendo. E perceba que isso não significa que a universidade tem a verdade absoluta e o gestor precisa aceitar, mas sim que é preciso que haja uma troca de experiências entre prática e pesquisa.

Como vê as políticas públicas para comunidades em vulnerabilidade social?
Quando falamos desses grupos devemos ter cuidado para não estigmatizá-los.  Muitas vezes chegamos nas comunidades e falamos que eles são carentes e precisam de esporte, mas é preciso entender essas comunidades e como elas funcionam. Não devemos carimbar as pessoas pelos problemas sociais que enfrentam. Entretanto, é preciso ter muito claro quais são as populações que estão mais carentes, porque o esporte pode ser um meio para desenvolver a cidadania ali, ainda que não seja a salvação para todos os problemas da região. É preciso que as políticas esportivas estejam aliadas às demais, como saúde, educação, geração de empregos, etc. Infelizmente o estado não dá conta de fazer tudo, o dinheiro que entra é insuficiente para todas as demandas, por isso é uma questão de priorizar certos grupos que necessitam de maior atenção e atuação integrada do estado. 

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