“Se eu estou aqui ao lado do Nadal, então devo ser tão ‘sinistra’ quanto ele” | Entrevista com Amanda Simeão
31/08/2020 - 14:33

O primeiro contato da Amanda Simeão com a esgrima aconteceu quando ela tinha apenas 12 anos, na época em que morava na Itália. Estava na escola quando uma mãe de um colega sugeriu que a turma tivesse uma aula experimental da modalidade. De primeira, Amanda se destacou e começou a fazer aulas particulares. Depois de quase um ano retornou ao Brasil e, na sua primeira competição oficial, vestindo as cores do Paraná, venceu nas três categorias: cadete, cadete juvenil e cadete adulto. Ganhou até mesmo na adulta, que era acima de 21 anos. 

Hoje, aos 26 anos, Amanda tem um currículo extenso. Conquistou um bronze inédito nos Pan-Americanos em 2016, foi capa da Revista Vogue em julho do mesmo ano e em 2018 levou a medalha de prata no campeonato Sul Americano. Atualmente está em Londres, se preparando para conquistar uma vaga em Tóquio.

Nesta entrevista, concedida através da live na página do Esporte Paraná, Amanda fala sobre gastronomia, esgrima e os melhores momentos da sua carreira. Lembrando que as lives acontecem às 17h nas terças e quintas-feiras, com transmissão pelo Instagram e pelo Facebook. Para conferir a reportagem ao vivo na íntegra, acesse nossa página no Instagram.

 

Logo na sua primeira competição estadual você ganhou de todo mundo. A vitória não te fez se sentir a melhor atleta do mundo?

Na verdade, me fez ver como temos uma grande diferença de nível entre os países europeus e o Brasil. Claro que eu me achei boa, ainda mais com 13 anos e vencendo atletas mais velhos, mas a sensação de desigualdade foi maior. Eu tive apenas um ano de treinamento na Itália e construi uma base tão forte que me deu essas conquistas. A decisão de me mudar para França foi também para treinar para as Olimpíadas, porque sabia que existe esse diferencial. Mas é interessante a gente perceber o quanto a base é importante, e eu acho que o Paraná faz isso muito bem, principalmente com o Geração Olímpica, que incentiva crianças e adolescentes desde a base. Quando você conhece as técnicas, práticas e gestos enquanto jovem, quando vira adulto fica fácil tão fácil quanto respirar ou andar. O esporte vem no automático. 

 

Então você foi para a França especificamente para se preparar para as Olimpíadas?

Sim, eu me mudei para lá em dezembro de 2009. Tinha quinze anos na época quando peitei a minha mãe. Falei que as olimpíadas eram o meu sonho e eu precisava me preparar. Felizmente ela me ajudou e me apoiou, e juntas nos mudamos para a França. Comecei a treinar e claro que uma medalha seria um sonho, mas na época eu queria mesmo era ao menos participar. Em 2011, quando começou o Geração Olímpica, foi o meu avô, que cuidava das coisas no Brasil, que me cadastrou. Comprei minha passagem para o Brasil só para o lançamento do Geração. Queria estar presente na primeira grande vitória do Paraná.

 

E qual foi a sua maior dificuldade na época?

Acho que estar longe dos meus amigos e perder aquela rotina de ir para a escola. Nem no cinema eu podia ir, porque não tinha amigos para me acompanhar. Literalmente éramos eu, minha mãe e meu irmão morando juntos. Eu treinava todos os dias de manhã e nos finais de semana eu tinha competições. Acho graça quando as pessoas dizem que eu não posso reclamar porque treinava em Paris. De fato, eu não tenho do que reclamar, só agradecer. Mas, ainda sim, foi uma vida bem restrita. Quando você quer se dedicar ao esporte de alto rendimento, porque quer atingir o patamar alto e quer uma medalha olímpica, você abre mão de muita coisa.  

 

Você tem um bronze inédito no Pan, em Toronto. Como foi a sensação da medalha ?

Até me arrepio, só de lembrar. Foi uma sensação de “Ah meu deus do céu” [risos]. A Nataly e a Raissa, da minha equipe, já tinham jogado individual e sabiam como era difícil lidar com a cobrança, mas eu era inexperiente. Quando perdemos a final para os Estados Unidos por um toque ficamos muito abaladas. Como a esgrima é um esporte individual, é difícil você se adaptar a uma equipe. É complicado mudar a cabeça e trocar a chavinha para “equipe”. Levamos anos até ficarmos realmente fortes e unidas, onde o sonho individual se tornou coletivo. Nesse Pan foi legal porque conseguimos essa mentalidade. Quando uma não fazia o toque, as outras estavam ali, dando apoio. Quando perdemos dos Estados Unidos choramos, mas quando ganhamos o bronze contra Cuba… Foi um dos resultados que eu nunca vou esquecer. Para mim, ainda é a vitória mais importante. 

 

E você também é prata no campeonato Sul Americano. Foi uma experiência parecida?

Também foi uma vitória muito importante, mas por outras razões. Em 2016 eu rompi o ligamento do joelho. Participei da Rio 2016 com uma órtese sob medida. Deu certo, mas eu não estava no meu melhor e assim que acabaram os jogos eu operei. Tive um ano de recuperação muito difícil e o Sul Americano foi minha primeira competição internacional depois da cirurgia. Durante os treinos eu estava 100% focada, usava máscara para treinar, perdi muito peso. Depois de uma lesão o atleta sempre tem medo. Me perguntava “será que meu corpo vai aguentar?”. O medo de me machucar de novo, e a ansiedade… achei que ia pegar bucha [risos]. Felizmente fui ganhando as provas e consegui conquistar o prata. Acho que só não ganhei ouro porque me desesperei, quis ir para cima e pensei “ah vou acabar logo com isso” e não deu certo. De qualquer forma, foi uma vitória muito emocionante. 

 

Qual foi a importância da vitória da Nataly no mundial? 

Acho que não foi apenas a realização de um sonho para ela, mas para todos nós também.  A Nataly sempre era aquela que chegava um pouco atrasada nos treinos [risos], mas que também treinava um pouco mais do que todo mundo. Para mim, sempre foi uma fonte de inspiração. Acompanhei grande parte da trajetória da vida dela como atleta, os altos e baixos e as dúvidas no caminho. Às vezes o atleta chega em uma idade que se pergunta se já fez seu máximo. Ela já tem 33 anos e pode estar no final da sua carreira, ou no seu ápice. Eu me pergunto o mesmo, penso se não atingi o que eu tinha para atingir. Estou no ápice ou no final? Quando a Nataly passou por todos esses desafios sem desistir e foi campeã do mundo… Acho que passou pela cabeça de qualquer atleta brasileiro: se ela alcançou, eu também posso alcançar. E, além dela tornar o sonho possível, também abriu portas. Antigamente pouca gente conhecia a esgrima, agora temos uma campeã do mundo brasileira. Isso é importante, tanto para a esgrima, tanto para outras modalidades. Assim o atleta brasileiro pode se espelhar, sem precisar admirar apenas os estrangeiros. 

 

Neste momento de isolamento social, qual está sendo sua maior dificuldade?

Para mim o mais difícil é não ter um objetivo. O atleta, quando começa a treinar, sempre tem uma competição em mente. Agora, com tudo parado, é difícil bolar um planejamento de treino. Hoje estou dando o meu melhor e visualizando que sou meu próprio adversário. Preciso levantar cedo, treinar e assistir vídeos online de esgrima para me preparar para um futuro ainda incerto. Nós, da arte e do esporte, estamos sofrendo muito com essa incerteza. Não existe homeoffice para nós. Não temos uma perspectiva de quando realmente colocaremos em prática todo o nosso trabalho. Eu, por exemplo, tenho muita dificuldade em acordar cedo. Como não tenho treinador para encontrar, ou equipe para praticar, as vezes dá aquela preguiça. E eu nem posso marcar às oito da manhã com o meu treinador, porque no Brasil são três horas da manhã. Daí é sacanagem com ele né? [risos]

 

Na Rio 2016 você chegou a participar da cerimônia de abertura? 

Não, porque tínhamos jogo no dia seguinte. A espada feminina sempre tem esse azar, eu nunca consegui ver nenhuma abertura de nenhum jogo internacional que participei. No caso das olimpíadas do Rio eu tinha ido embora, mas voltei só para o encerramento. É uma emoção grande demais participar de um evento desse nível. Exemplo maior foi quando eu cheguei na vila olímpica e jantei sentando de frente para o Rafael Nadal [tenista]. Ele com a roupa da sua seleção, eu com a minha, mais de 11 horas da noite e nós dois jantando juntos. A ficha começou a cair ali: se eu estou aqui ao lado do Nadal, então devo ser tão ‘sinistra’ quanto ele [risos]. Você presenciar tudo isso, conviver com seus ídolos, é uma sensação que vicia o atleta. Quando termina, você não vê a hora de participar de outro grande evento. 

 

Falando de outra grande paixão sua, a gastronomia. Como ela começou?

Eu sempre gostei muito de cozinhar. Minha mãe nos deixava livre, fazíamos nosso próprio mercado e nossa refeição. Em Curitiba,  fiz um curso de chef gourmet e aprendi a base da cozinha, porque uma coisa é você se meter, outra é entender as práticas e técnicas de cortes e preparos. Fui me apaixonando e fiz um curso Pâtisserie, que é bem delicado e exige medidas precisas. Como ser atleta, na verdade. Na cozinha eu gosto mais de ir inventando, misturar um pouco do Brasil, da Itália e da França. Quando minha mãe abriu um restaurante em Londres e eu comecei a morar aqui tive a oportunidade de cozinhar para um grande público. Agora já passei dessa pressão de cozinhar para bastante gente. Inclusive gente famosa, já servi um ator de Hollywood. Por enquanto não é uma carreira profissional, mas é algo que eu amo muito e venho aprimorando nos últimos anos. 

 

*Foto de Pavía / Bizzi Team.

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