“Esse é o trabalho do técnico: solucionar problemas” | Entrevista com Robson Xavier
30/07/2020 - 15:45

Anos de profissão e muita história para contar: este é Robson Xavier, técnico da seleção de base masculina de Vôlei de praia - Categoria sub-17, 19 e sub 21 - e convidado de estreia da live do Esporte Paraná. A iniciativa, que acontece às 17h nas terças e quintas-feiras com transmissão pelo instagram e pelo facebook, visa abrir espaço para atletas, técnicos e profissionais da área compartilharem suas experiências com o público de maneira mais acessível e transparente.

Natural de Maringá e paranaense de “pé vermelho”, Robson expõe no currículo 12 títulos brasileiros e é um nome de destaque no esporte nacional. Foi um dos fundadores da Associação Maringaense de Vôlei de Praia em 2001 e, em 2008, ajudou na formulação dos campeonatos brasileiros de base. O caminho percorrido até chegar no vôlei, como ele mesmo revela, é antigo. Advogado por formação, no final do expediente não recusava uma partida com os amigos. Depois que ajudou a fundar a associação, sua carreira decolou e não parou mais. 

Orgulhosamente, conta que é bolsista do Programa Geração Olímpica desde a primeira edição que contemplou os técnicos, em 2013. Acredita que o programa é o que mais incentiva atletas no país sem desmerecer a importância dos técnicos. “Se a gente for pensar, não existe atleta se não tiver técnico. Eles não nascem e brotam sem uma pessoa que os direcione.”, reflete ele. 

A seguir, Robson fala um pouco sobre sua carreira, o papel dos técnicos na formação dos atletas e divide curiosidades das suas muitas competições travadas no exterior. Para conferir a reportagem ao vivo na íntegra, acesse nossa página no instagram

 

Como funciona o descobrimento do talento?
Com o decorrer dos anos percebemos características que podem nos levar a ter resultados, mas a maior parte dos garotos nem sabe desse potencial. Como técnico, a gente ajuda a desenvolver qualidades que já são inerentes do atleta, para que ele chegue no máximo do seu rendimento. Mas não não é uma fórmula, não existe receita para descobrir o talento. Muito pelo contrário: existem tantas coisas que vão acontecendo durante o processo até que o atleta chegue no seu máximo.

 

E imagino que não seja um processo rápido?
É um processo muito longo, meu amigo. Costumo dizer que o amadurecimento de um campeão leva, no mínimo, cinco anos.  Só então estará maduro para colher os frutos de um trabalho que começou lá atrás. A gente dá esse pontapé inicial, acreditamos [no potencial], apostamos nele, mas a contrapartida do atleta é necessária. E, se não tiver oportunidade, ele também não chega lá. É um grande mérito o que nós fazemos na Associação, na Prefeitura e com a ajuda dos nossos parceiros. Oportunizamos esses garotos para que eles consigam entrar nesse processo longo. Já os programas, como o Bolsa Atleta do Governo Federal e o Geração Olímpica do Governo do Estado, dão o suporte para eles possam sobreviver e alçar esses sonhos. É o conjunto que nos levanta. Por isso somos destaque no cenário nacional. 

 

Além das bolsas contribuírem para a sobrevivência do atleta, também dão um senso de responsabilidade para eles. Você observa o mesmo acontecendo com os meninos que treina?
Sim, e esse senso de responsabilidade também vai amadurecendo os garotos. Existe um sentimento de merecimento da parte deles, porque eles sabem que se foram contemplados, é porque fizeram algo bom. Quase como uma troca, de esforço e reconhecimento. 

 

Como funciona o equilíbrio entre a preparação física e mental dos garotos? É comum existir atletas fisicamente capazes, mas com limitações emocionais?
Não é comum, mas acontece. Eles não vão chegar ao máximo se não estiverem mentalmente maduros para isso. O atleta vai crescendo devagarzinho e aprendendo que a cada degrau que sobe, maior é a dificuldade que precisa enfrentar. Se antes o jogo era mais lento, aos poucos vai se tornando mais rápido. O atleta precisa amadurecer na mesma velocidade das partidas, porque é o grau de exigência dos campeonatos que delimita até onde aquele garoto pode ir. Não existe nenhum campeão que já não tenha uma capacidade mental acima da média, porque ele passou por tantas coisas para chegar nesse ápice, que foi a sua resiliência que determinou seu sucesso. Afinal, no esporte, você tem momentos que está muito bem, e outros que está muito mal. Essas variações fazem parte do processo. Se não for capaz de acompanhar mentalmente, estão está fadado a chegar com 19/20 anos e descobrir que precisa seguir outro caminho. Que, talvez, tornar o esporte sua profissão não seja para você. 

 

Você foi para os jogos olímpicos da juventude e disputou o mundial. Fale um pouco desses momentos internacionais da sua carreira. 
Quem é da nossa área sabe que trabalhamos muito para chegar com a Seleção Brasileira. Podemos dizer que é o ápice das nossas carreiras. Campeonatos sul americano e pan americano são incríveis. E ter a sorte de ter na seleção os atletas da nossa cidade/estado, que acompanhamos há anos, é um gostinho a mais. Como técnico, ter a oportunidade de observar como jogam as outras seleções, também é muito importante. 

 

O brasil e os Estados Unidos são potências históricas do vôlei de praia. Você tem observado um crescimento da categoria em outros continentes também?
Muito. Comparado a outros esportes como o basquete, que envolve um time todo, o vôlei de praia sempre foi considerado uma “medalha barata” pelo baixo custo de investimento nas duplas. Hoje os outros países entenderam isso e estão investindo mais, principalmente os europeus. Atualmente, a melhor dupla mundial é a Norueguesa. Os alemães foram campeões olímpicos em 2016 e vêm fazendo um trabalho primoroso nas categorias de base. Nos mundiais, várias vezes jogamos contra os times Russos. A gente também vem enfrentando dificuldades para vencer nossos vizinhos, como o Paraguai, Argentina e Chile. Hoje os torneios mundiais são vencidos por detalhes e existem muitos técnicos brasileiros trabalhando fora. Digo com tranquilidade que temos uns oito países com nível altíssimo.

 

Como administrar esse momento de pandemia com os adiamentos dos jogos? É uma situação complexa para os atletas. 
Certamente. O ano pré olímpico, onde você tem a corrida olímpica que te classifica, é um torneio muito difícil e desgastante. Além de você jogar o circuito mundial, antes você precisa ser a melhor dupla do mundo para se classificar. A expectativa que isso criou… Mas, é claro que jamais imaginávamos que viveríamos esse momento [de pandemia]. Felizmente tivemos outra vez uma paranaense classificada, e ela vai brigar por mais uma medalha quando a hora chegar. Disso, tenho certeza [risos].

 

Como você vê a importância dos programas que captam novos talentos e que, assim, fornecem espelhos para outros atletas seguirem? 
Nós temos alguns espelhos mais antigos, como Emanuel e a Ágatha, para citar alguns, mas vamos trazer para a nossa realidade: os meninos que são da categoria de base, Sub-19 e 21, treinam na quadra ao lado de grandes nomes atuais como Arthur lanci, Saymon Barbosa e Felipe Cavazin. Quando o atleta vê essa referência do seu lado, participando do mesmo processo, eles pensam “Eu também sou capaz. Se eu me dedicar e tiver as mesmas virtudes que eles já tiveram, com certeza eu posso chegar lá”. O espelho serve para provar que é possível. 

 

Falamos muito sobre seu trabalho fora das quadras, mas e dentro? Como funciona seu trabalho no momento do jogo?
Olha, nós interferimos o tempo todo durante as partidas. Fazemos um plano de jogo, conhecemos os pontos fortes e fracos dos adversários, mas nos focamos nas armas que temos enquanto equipe. A gente traça o plano A, mas também temos o B e o C. Durante o jogo temos essas situações pré estabelecidas, mas se elas não se concretizarem, então começamos a fazer mudanças. E, quando trabalhamos com as categorias de base, o emocional aflora muito. Acho que nunca participei de um mundial em que não tive alguma situação de extrema tensão, em que ganhamos por detalhes influenciados pelo emocional. 

 

Tem algum exemplo?
A final do mundial Sub-21 em 2017, Brasil e Rússia. Mantivemos o nível alto em todas as competições, mas no final, logo nessa partida, não estávamos bem. Jogo difícil, emocional abalado, o placar 20 a 14. E, surpreendentemente, conseguimos vencer de 22 a 20. Foi uma vitória épica. Muito do que tínhamos planejado não estava funcionando, porque não era um jogo técnico, era emocional e psicológico. Quando isso acontece, a gente tenta dar suporte emocional aos atletas. Esse é o papel do técnico também: solucionar problemas. Alguns desses problemas a gente já vivenciou em treinamentos, outros são novos e acontecem na hora do jogo. Costumo dizer que o atleta tem uma caixinha de ferramentas consigo. Nesses momentos de tensão, ele deve abrir a caixinha e encontrar uma solução com as ferramentas que tem. E nós, como técnicos, auxiliamos: “Usa essa peça agora, depois essa”. 


Qual foi a sua competição inesquecível?
Ah, foram tantas. Os jogos Brasileiros da Juventude em Belém me marcaram muito. Fizemos nossa final contra o Rio de Janeiro e estávamos perdendo o primeiro set de 21 a 8, mas viramos no segundo e ganhamos a competição. Uma colega que tinha nos abandonado no primeiro set, quando descobriu que tínhamos vencido, ficou chocada. Foi muito engraçado. O jogo também foi atípico, estava muito quente, levava quase duas horas do hotel até a competição, um trânsito terrível. 

 

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