Escalando o everest dos mares | Entrevista com Mariana Chevalier
30/09/2020 - 14:10

Filho de peixe, peixinho é. Mariana Chevalier, 16 anos, atribui sua aptidão ao seu pai, que sempre gostou muito do mar. Seguindo seus passos, com apenas oito anos começou a competir nas piscinas. Aos 14 anos deixou de lado o cheiro do cloro e se lançou no horizonte azul, época em que entrou na equipe de maratona aquática. Dois anos depois aceitou percorrer o canal da Mancha, trecho de 33 km entre a Inglaterra e a França, famoso por ser o desafio preferido dos nadadores de alta performance. Desafio esse que, quando cumpriu, levou Mariana a quebrar um recorde. Hoje, é a brasileira mais jovem a percorrer a distância, levando 11 horas e 55 minutos durante todo o trajeto. 

“Esse título que estão me dando, da brasileira mais nova, foi só uma consequência do período que eu escolhi para fazer a prova”, explica Mariana modestamente. Ela tinha recém voltado de uma prova na Ilha do Mel quando houve uma desistência, abrindo a vaga para que ela percorresse o Canal em 30 de julho de 2020. Aceitou e começou a planejar sua rotina de treino em dezembro do ano passado. “Tive menos de seis meses para treinar, o que foi um período bem curto se comparado com outros atletas que podem levar até quatro anos se preparando”, relembra. 

Nesta entrevista, concedida na página do instagram da Paraná Esporte, a atleta conta os particularidades do Canal da Mancha, as curiosidades do seu treinamento e os momentos mais difíceis da prova. Lembrando que as lives acontecem às 17h nas terças e quintas-feiras, com transmissão pelo Instagram e pelo Facebook. Para conferir a reportagem ao vivo na íntegra, acesse nossa página no Instagram.

 

Como você se preparou para a travessia? 

Sabe, tem gente que brinca que ela é o Evereste das travessias aquáticas. Em linha reta são 33 km, mas a influência da maré e a correnteza alteram muito a distância final. No dia que eu nadei, devido a condição do mar, eu percorri cerca de 50 km. Na minha cabeça não seria nada muito diferente do que eu já estava acostumada. Teria que entrar novamente nesse ritmo, porque já nadava provas de maratona e fechava em uma semana 100 km percorridos. Só que eu não contava com a pandemia. Por causa dela minha disponibilidade de piscinas ficou escassa. Eu treino no Clube Curitibano mas, quando ele fechou, precisei treinar em piscinas de amigos meus e dos meus técnicos. E eu não podia chegar do nada na casa da pessoa, de madrugada, e pedir pela piscina né? Então isso comprometeu demais meu treinamento. 

 

Foi difícil viajar devido a pandemia?

Foi incerto. A União Europeia chegou a recomendar que os países fechassem suas fronteiras para países que não estivessem com a pandemia controlada, e óbvio que o Brasil poderia entrar nessa lista. Saiu a lista e o Brasil estava lá, mas a Inglaterra não aderiu a recomendação de fechar suas fronteiras. Só definiram que os recém chegados deveriam cumprir um período de 15 dias de quarentena. Nesse tempo eu fiquei trancada no hotel, fazendo alguns exercícios com borrachas e elásticos. Foi bem frustrante. 

 

E o que mais te preocupava antes de fazer a prova? 

A água gelada do Canal. Lá a temperatura varia de 13 a 18 graus, mas o padrão olímpico é 26. Quem está acostumado sente quando a água está um grau mais quente ou mais gelada. Por causa da pandemia eu treinei em piscinas sem aquecimento, então o oposto aconteceu. Achei que estaria preparada para a distância, mas foi nela que tive dificuldades, enquanto a temperatura não me incomodou.

 

Então a água não estava tão gelada?

Eu fui para a Inglaterra no ano passado e me lembro de passar muito frio. Não aguentei uma hora na água. Eu realmente estava preocupada com o frio e, como fiquei 15 dias de quarentena, tomei banho gelado no hotel para não perder a adaptação. Quando entrei no mar para treinar, 4 dias antes da competição, eu pensei “nossa, está gostosinho. Consigo ficar aqui”. Não tremi e não passei mal, foi um verdadeiro alívio. Durante a prova eu comecei a ter um princípio de frio pela quarta hora, mas acelerei e passou. Quando comecei a chegar na França senti algumas correntezas mais frias. Sentia que nadava em 17 graus, e do nada descia para 14. Como estava no final da prova, e estava com calor, não me prejudicou. O dia estava ótimo também, ensolarado e sem vento. Vou me gabar para todo mundo: eu realmente não passei frio na prova. [risos] 

 

E outras complicações? Ouvi dizer de alguns conflitos com água vivas...

Eu tenho pânico real de água viva, se estou de férias na praia e ouço dizer que alguém avistou alguma, eu nem entro no mar. Já levei queimadura delas antes, e não tinha como desistir da prova só por causa disso. Então, com todo o meu medo, perguntei para o pessoal que já tinha feito a prova e eles falaram “A parte boa é que elas são muito grandes”. Tive que perguntar qual era a vantagem, porque não estava entendendo [risos]. Me explicaram que eram tão grandes que facilitava escapar delas. 

 

Grandes quanto? 

Grandes tipo gigantes de dois metros. Minutos antes de pular no mar um dos pilotos do barco me disse que talvez eu nem encontrasse com elas e de fato, nas primeiras horas de prova eu não vi nenhuma. Lá pela terceira hora uma delas me queimou na orelha, mas foi rápido, de raspão. Depois no braço e antebraço, mas eu fingi que não estava acontecendo. 

 

Então você realmente conseguia enxergá-las?  

Essas não, porque eu estava distraída. Eu via algumas no fundo, 3m debaixo de mim, mas não sabia o que eram. Meu psicológico preferiu acreditar que eram sacos plásticos encardidos, porque não poderiam ser tão grandes [risos]. No Brasil estamos acostumados a ver as pequenas transparentes ou as bem azuis, não vemos essas feias e marrons. Quando cheguei na sexta hora de prova que encontrei a maioria. Precisamos fazer um esquema em que eu nadava por uns dez metros e, quando aparecia uma fileira, meu pai ou técnico assobiavam para mim. Eu parava de nadar e tentava desviar. Nessa brincadeira eu perdi  mais de dez minutos. Fiquei irritada, porque tinha que nadar prestando a atenção. Teve uma hora que eu peguei um aglomerado tão grande que era impossível desviar. Fiz o que achei que daria certo: tentei mergulhar, passando por baixo delas. Não deu certo, péssima ideia. Me queimaram as costas toda. Para piorar, sou alérgica. Quando uma delas me pegou no rosto pensei que teria que tomar um antialérgico que tinha trazido e estava no barco, mas felizmente não precisou. 

 

A correnteza também foi uma dificuldade? 

O horário da prova é definido pensando nela. Se for olhar o mapa da trajetória, verá que ela tem o formato de um S, porque a maré tem uma variação de 6 em 6 horas. Quando eu comecei a prova eu tinha uma hora até a maré acabar de encher. Naturalmente, você não consegue escapar disso. O mar me jogou primeiro para a esquerda, depois para a direita. Eu já sabia que teria a possibilidade de ficar um tempo presa, mas não achei que ficaria 2 horas no mesmo lugar, nadando, nadando, nadando e sem sair do lugar. Foi muito cansativo e eu estava ficando de saco cheio, ainda mais porque já estava conseguindo ver a costa, mas não sabia onde tinha que chegar. Se alguém me dissesse “vá em direção aquela pedra”, teria sido mais fácil, porque depois de 10h nadando e só vendo mar, eu queria um ponto de referência. Meu pai e meu técnico também estavam gritando [do barco] e me alertando que se eu não acelerasse, eu ficaria presa na correnteza que já estava mudando. 

 

Você ficou quase 12 horas na água. Como funciona a hidratação e a alimentação durante a prova? 

É obrigatório que cada nadador tenha um barco te acompanhando durante toda a prova, por uma questão de orientação, segurança, apoio e hidratação. Ali não chega a ser mar aberto, mas tem um tráfego grande de navios. Quando você precisa comer ou tomar algo, sua equipe no barco te alcança através de uma vara de 3m, que tem um cano de PVC na ponta. Imagine aquelas suportes de garrafa de água em bike, a engenhoca é parecida. Ali nessa cestinha eles colocam em saquinho Zip Lock com copinhos e alimentos. A regra não permite que você toque no barco nem segure na vara, então eles me alcançam o que eu preciso. Eu viro de costas, como nas provas normais, e depois devolvo a embalagem usada. Em seguida, segue o jogo.  

 

Como trabalhou a questão mental para fazer a prova?  

Mentalmente eu estava tranquila. Essas provas de maratona são um divertimento para mim. Nado contra eu mesma e claro que não vou fazer corpo mole, mas não tenho a preocupação de ter alguém me passando. A prova do Canal foi um divertimento porque eu estava ali porque queria, então minha cabeça estava em um bom lugar. O que me pegou mais foi o físico, eu não me preparei o tanto que gostaria de ter me preparado. A pandemia afetou meus treinos, só consegui treinar na piscina e não no mar, e ainda não pude fazer grandes distâncias. No começo da prova meu ritmo estava constante, se não tivesse correnteza teria conseguido fazer a prova em menos de dez horas.

 

Suas outras provas, da Ilha do Mel e do Pontal, se comparam com a da Canal?

Eu fiz a da Ilha da Mel no ano passado e tinha 23km. A do Pontal tinha 36. Comparadas com o Canal, são provas muito diferentes. O mar da Ilha do Mel é muito tranquilo, você quase não tem correnteza. Tem vento, claro, o mar pode virar, mas não é perigoso. No Pontal eu sei que tem uma correnteza próxima a Praia da Brava, onde você pode ficar preso, mas no horário que eu fiz a prova não cheguei a pegar essa correnteza. Tinham ondas, mas eram grandes, então eu subia e descia com a ondulação. Então, apesar das distâncias serem similares, as variáveis são enormes. 

 

Quando chegou na França, ainda tinha fôlego para comemorar? 

Foi tenso porque eu precisava nadar rápido para fugir da correnteza e estava exausta. Um dos peritos pegou o bote inflável e me acompanhou no final, e lembro que ele chegou a comentar que eu precisava tomar cuidado porque estava chegando em uma área com muitas pedras. Quando coloquei meu pé na pedra e levantei o braço, sinalizando que tinha terminado, eu só conseguia pensar “nossa, eu preciso demais dormir”. Só queria chegar naquele hotel, deitar na cama e queria ver quem seria capaz de me tirar de lá. Estava feliz pra caramba, tirei um peso dos ombros, mas a exaustão… Acho que nem comemorei direito. E o pior foi que nem consegui dormir, porque tinha tanta mensagem para responder no meu celular, e tanta ligação para fazer, que a adrenalina nem me deixou descansar direito.

 

Foto de capa: acervo pessoal Maria Chevalier.

Últimas Notícias