“O sonho de participar de uma olimpíada eu já realizei. Agora quero dar um passo a mais” | Entrevista com Ana Paula Vergutz
24/08/2020 - 10:24

A canoagem seduziu Ana Paula Vergutz em dois momentos distintos da sua vida. A primeira vez que tentou, quando tinha dez anos, não sentiu muita afeição. Natural de Cascavel (PR), cresceu assistindo as pessoas remando no lago próximo a casa dos pais. Depois de uma adolescência como atleta de vôlei, estava caminhando nas margens do lago quando decidiu testar outra vez. “Eu tinha 18 anos na época mas, desde então, não larguei mais”, contou ela, lembrando-se do momento em que a tentação se transformou em fascínio, paixão e profissão. 

Ana Paula, que também é bolsista do programa Geração Olímpica, tem duas medalhas em edições dos Jogos Pan-americanos: bronze no K1 500m em Toronto 2015 e Lima 2019. Atualmente está focada em conquistar uma vaga para Tóquio. Quanto aos dias difíceis que permeiam 2020, seu tom é otimista. “Digo aos meus colegas de profissão: se mantenham focados! A pandemia vai passar e logo estaremos juntos novamente, competindo nos grandes eventos esportivos mundo afora.” 

Nesta entrevista, concedida através da live na página do Esporte Paraná, Ana Paula explicou um pouco sobre as particularidades da canoagem e as dificuldades enfrentadas no esporte.Lembrando que as lives acontecem às 17h nas terças e quintas-feiras, com transmissão pelo Instagram e pelo Facebook. Para conferir a reportagem ao vivo na íntegra, acesse nossa página no Instagram

 

A canoagem tem alguns códigos que, para quem vê de fora, não entende. O que significa K2, K4, C1 e C2?
A letra representa a embarcação e o número é a quantidade de atleta nela; K para caiaque e C para canoa. Basicamente a diferença está na posição que o atleta compete. Na canoa ele fica de joelhos na embarcação, remando apenas por um lado, não tem leme e a direção é dada pelo movimento do braço e da perna. No caiaque nós sentamos, temos leme e duas pás. Até um tempo atrás a canoa feminina nem era um esporte olímpico. Será pela primeira vez agora em Tóquio. 

 

As mudanças, ainda que sutis, fazem com que seja outra prova então? 
Sim, é totalmente outra prova, até porque o movimento para direcionar o leme na canoa é em formato de “J”. Nós, no caiaque, não temos essa dificuldade. Eu acho bem complicada a canoa, tiro o chapéu pro Isaquias Queiroz, nosso representante masculino e medalhista olímpico. Tive a honra de treinar com ele em 2014, em São Paulo, e foi um aprendizado gigantesco. Um rapaz de energia infinita, sempre disposto a treinar. Enquanto os outros estão cansados, ele está com o gás todo. 

 

Qual a sua especialidade de prova? 
A minha especialidade é K1, 500m, ou seja, a prova que eu consigo chegar em um tempo competitivo, de nível mundial. A prova de 200m exige mais explosão e coordenação, características mais fáceis para atletas menores. Eu tenho 1.76 metros de altura, sou alta para a modalidade, e não consigo ser tão explosiva para dar as remadas que o percurso curto exige. Para mim, quanto mais longa a prova, melhor. Uma pena que a prova de 1000 metros não seja olímpica. 

 

Falando da sua grande conquista, Bronze no Pan-Americano. Como foi a experiência? 
Foi uma medalha inédita. Até então não tínhamos nenhuma representante feminina na canoagem em velocidade. Temos a Ana Sátila, mas a modalidade dela é feita em corredeira. A prova é bem diferente, tem balizas, você não pode relar que perde alguns pontos. Confesso que nem sei direito como funciona, nem mesmo tentei praticar. Não seria possível aqui em Cascavel; o mais perto que teríamos de uma corredeira seria Foz do Iguaçu. 

 

Como é o clima na raia, segundos antes da largada? Os competidores se provocam, ou todos estão 100% concentrados?
A concentração é total. Nunca vi campeonato mundial em que os atletas se provocaram. O coração está disparado e você precisa controlar a respiração. Ali na largada tem um partidor, onde a gente encosta o bico da embarcação até o árbitro liberar a partida. Nesse meio tempo, não tem muito o que fazer. A concentração é importante porque quem arrancar primeiro vai ter a vantagem. 

 

Como foi a experiência da Rio 2016? 
É uma emoção muito grande participar de um evento que você sonhou a vida inteira em participar, ainda que eu sempre diga que eu não consegui chegar na minha melhor condição em 2016. Nos anos anteriores eu fiz tempos próximos a atletas de ponta, mas em 2016 eu me cobrei demais. Meu psicológico não me ajudou e na época eu não consegui resolver internamente minhas questões. Cheguei a participar dos jogos, mas não mostrei meu melhor. Hoje a minha vontade é tirar esse amargor que ficou da Rio 2016 com Tóquio. Quero representar bem o Brasil, estar lado a lado com as adversárias e — quem sabe — como finalista. O sonho de participar de uma olimpíada eu já realizei. Agora quero dar um passo a mais. 

 

Você reconheceu o que te afetou na Rio 2016? É possível trabalhar essas questões? 
É possível, ainda mais ao lado de um psicólogo, e nós temos ele na seleção. Hoje eu percebo que tanto eu, como meu técnico, éramos muito inexperientes. Na época eu pensava quanto mais treino melhor, e ele dizia “vamos com calma”. No fim, eu acabava fazendo algumas coisas por conta. Agora não faço mais isso, sei que ele é capaz de continuar me treinando sem que eu faça nada por fora. Apesar do esforço pessoal para conquistar a vaga olímpica, eu não coloco mais essa dúvida em mim de que “preciso fazer mais, ser mais”. 

 

O que que precisa para conseguir uma vaga em Tóquio?
Na canoagem nós temos três possibilidades. A primeira foi o mundial, que aconteceu em agosto. Eu escolhi não ir, porque temi não alcançar o nível competitivo exigido. A segunda é pela classificação continental, ou seja, o resultado do Pan Americano. Preciso chegar em primeiro lugar para garantir a vaga. Já a terceira é pela Copa do Mundo, também uma só vaga, mas é muito difícil competir com tanta gente. 

 

Quem são suas principais adversárias para a vaga de Tóquio?
As garotas mexicanas e canadenses. Apesar que sempre aparece uma Húngara e uma Cubana de última hora [risos]. Aqui na América muda bastante, mas sempre se mantém uma canadense entre as três primeiras, e então se revezam entre Cuba, Argentina e México. Cuba sempre lança uma garota forte, só dessa vez no Pan de 2019 que não lançaram nenhuma. Na Rio 2016 eles conquistaram uma vaga pela Lista mundial, de tão forte que a garota era.  

 

É fácil alcançar a sincronicidade nas provas em duplas? 
Pode ser bastante complicado. Se a remada não é sincronizada, a gente diz que o barco não encaixa e não rende. Treinei com a Ariela Pinto, uma menina muito forte no cenário da canoagem brasileira, e o barco não fazia tempo com nós duas. Ele entortava, parecia que uma remava para um lado, e a outra para o outro. A questão do encaixe de remada é que a sua puxada na água tem que ser parecida com a dupla para o barco render. É mais fácil você encaixar no K4 do que no K2. Acho que é por isso que a prova é tão bonita de assistir, porque quando dá certo, o movimento é bem sincronizado. 

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